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Fotografia brasileira, diversidade cultural, eraldo peres

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Viva São Benedito! Os (com) passos da marujada amazônica


“Vou fazer uma canção em louvor ao santo preto

Canta, povo bragantino: bendito, oh! Bendito.

Quando chegar dezembro

Qual é o santo que está no andor?

É São Benedito com Nosso Senhor.”

Arraial do Pavulagem


“Navegar é preciso, viver não é preciso”. Essa frase emblemática utilizada pelo general romano Pompeu, difundida pelos poetas Petrarca e Fernando Pessoa, traduz a importância do mar no imaginário daqueles que tiveram sua trajetória associada ao universo marítimo, a exemplo das navegações portuguesas e do tráfico negreiro. Esses deslocamentos para além do Atlântico foram celebrados por obras como Os Lusíadas, de Luís de Camões, “O navio negreiro”, de Castro Alves, e diversas composições que reúnem um fabulário composto de cenas líricas e trágicas sobre o tema das travessias. (MADEIRA, 2005) Dentre essas expressões se destacam um conjunto de manifestações culturais populares inspiradas nessa profusão de textos e sons, folguedos marcados por danças e encenações conhecidos como Cheganças de Marujos, também chamados de Marujadas, Cheganças ou Fandangos.

As descobertas marítimas, os traumas dos naufrágios e do tráfico intercontinental contribuíram para alimentar esse imaginário, somados às performances que os marujos realizavam em alto-mar, durante as longas travessias. De acordo com Josias Pires (2004), as Cheganças de Marujos provavelmente foram gestadas na memória daqueles navegantes ou, pelo menos, “nasceram como um desdobramento do teatro embarcado. Era tão pungente e extraordinária a experiência das longas travessias pelo mar oceano, que os amantes da música e das danças dramáticas trouxeram dos fatos e experiências das navegações um farto material para elaborar os folguedos.” (p. 77) O autor também sublinha o impacto das viagens transatlânticas no imaginário das populações africanas forçadas a vir para o Brasil escravocrata e a importância dos afro-brasileiros na difusão desses folguedos. Para tanto, reconhece o fato de muitas marujadas terem São Benedito por padroeiro, historicamente com o culto associado às populações negras; a presença do personagem “marujo” em manifestações elaboradas por africanos e descendentes (a exemplo das estrofes cantadas por Congos e Congadas); e a deferência ao “marujo” em alguns candomblés de caboclo e da nação Angola (espécie de mensageiro que viveu entre índios e negros e transita entre os mortais e os encantados), como indícios dessas memórias construídas nas travessias do Atlântico Negro.

Essas manifestações estão presentes em diversas regiões litorâneas brasileiras, existindo também em algumas localidades entrecortadas por águas doces. De norte a sul do país, se mantêm vigorosas, retroalimentando um imaginário popular brasileiro e português difundido pela jaculatória “mar sagrado”. Dessa forma, do mesmo modo que não se podia poluir o mar, quando lançados, os rejeitos seriam devolvidos, relembrando sua capacidade de auto-purificação.

As instituições responsáveis pela difusão da Marujada em terras brasileiras foram, salvo algumas exceções, as Irmandades dos Homens Pretos fundadas nos séculos XVIII e XIX, associações religiosas compostas por africanos e descendentes que difundiram os cultos a São Benedito, Santa Efigênia e Nossa Senhora do Rosário. Isso é exemplar em Bragança-PA, município do nordeste paraense que conjuga praias, ilhas oceânicas e rios. Conforme destacou Gisele Carvalho (2010), Bragança é uma das cidades mais antigas da região amazônica, com colonização por franceses, espanhóis e portugueses. A cidade consistiu em um dos principais espaços de recepção de africanos escravizados no século XVIII e XIX. Atestam esse fato a existência da Igreja de São Benedito, a criação da Irmandade do Glorioso São Benedito de Bragança em no século XVIII e a secular realização da Marujada: “mais especificamente no dia 3 de setembro de 1798, a pedido de 14 escravos, os senhores permitiram que fosse organizada a Irmandade da Marujada de São Benedito de Bragança. Em gratidão à graça alcançada, os escravos saíram às ruas dançando em frente as casas dos seus senhores” (CARVALHO, 2010, p. 79) Essas evoluções coreográficas, em virtude do ex-voto pela criação da irmandade, resultaram na Marujada.

O mito fundador da Marujada diz respeito à promessa dos escravizados pela criação da Irmandade de São Benedito. Todavia, consiste em estratégia de resistência que os negros utilizaram para escamotear um conjunto de expressões culturais africanas em meio ao culto do santo negro católico: “O culto ao santo, a imagem de São Benedito, revestido de Cristianismo, era uma forma de manter e perdurar rituais. [...] Com a introdução das danças, do ritmo dos tambores, das indumentárias, aflora uma sequência de memórias que permaneciam enterradas nos terreiros africanos e que ressurgem silenciosamente.” (ALENCAR, 2014, p. 23)

Na verdade, é nesse encontro de diferentes compassos que reside uma das riquezas da Marujada em meio à floresta. Da peregrinação de promesseiros ao longo do ano em busca de recursos para a festividade do santo protetor – revivendo a prática de esmolar tão cara aos negros no Brasil Colônia – passando pelas diferentes inserções na celebração (procissão fluvial, missas, arraial, alvorada, levantamento de mastro, cavalhada etc.), o marco das celebrações a São Benedito consiste na Marujada. A esmolação é realizada por três comitivas (camponês, coloneiro e praiano) que percorrem a região de abril a dezembro visando obter recursos para a festividade que ocorre entre 18 e 31 de dezembro.

A Marujada de Bragança tem como singularidade o protagonismo feminino. Conforme destacaram Ester Correa e Edna Alencar (2015), existe uma ordem hierárquica no folguedo: a capitoa, responsável pela organização e que possui cargo vitalício, geralmente a maruja mais idosa; a vice-capitoa, segunda na linha de comando; a cabeça de linha, que inicia a dança de roda; as marujas, que exercem papel central na execução das danças; e os marujos, que são acompanhantes na dança ou tocadores dos instrumentos (tambores, pandeiros, cuíca, viola, cavaquinho, violino e rabeca).

As coreografias evocam o movimento do mar, realizadas com os pés descalços a representar os escravizados penitentes. As marujas utilizam blusa branca rendada, saia vermelha rodada, fita vermelha a tiracolo e um chapéu com plumas de aves e fitas coloridas. Os marujos utilizam calça e camisa branca, chapéu de palha revestido com fita vermelha e flor vermelha em uma das abas. No dia de Natal, no lugar do vermelho, marujas e marujos utilizam o azul celeste em homenagem ao nascimento de Jesus.

A Marujada de Bragança foi registrada como Patrimônio Imaterial do Pará, por meio de Lei Estadual nº 7.330/2009. É composta por um conjunto de danças fruto de readaptações “que vem do além-mar, seja do rico salão europeu: a mazurca, a valsa, o xote e a contradança, seja dos terreiros de chão batido da África: o retumbão, a roda, o chorado.” (ALENCAR, 2014, p. 87) Segundo Gisele Carvalho (2010), a roda anuncia o início e o fim do folguedo, retomando o mito de origem de solicitar permissão para sua realização. É dançada somente pelas marujas. O retumbão é a dança mais marcante, possui ritmo e compasso similiar ao lundum. O chorado é uma variação do retumbão, em ritmo mais suave. A mazurca, a valsa e o xote foram incorporados posteriormente, consistem na reelaboração de danças de origem polonesa, austríaca e alemã difundidas pelos portugueses.

Na verdade, essa mescla de influências, apesar de evocar características das danças européias e africanas, contribuiu para o surgimento de expressões culturais singulares, mantidas em torno da devoção a São Benedito. O movimento das ondas do Atlântico – entre as caravelas lusitanas e os navios negreiros – propiciou sua reinvenção artística em terra firme, em meio à floresta amazônica. Em Bragança, os negros e as mulheres assumiram o timão, cujo leme é o santo siciliano descendente de escravos oriundos da Etiópia. Santo que anualmente navega em procissão pelo rio Caeté e nos (com) passos de seus devotos-marujos.

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Clovis Britto é professor e pesquisador da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Referências

ALENCAR, Larissa Fontinele de. No rastro dos “pés descalços”: da Marujada à narrativa literária. Dissertação (Mestrado em Linguagens e Saberes na Amazônia), Universidade Federal do Pará, 2014.

CARVALHO, Gisele Maria de Oliveira. A festa do “santo preto”: tradição e percepção da Marujada Bragantina. Dissertação (Mestrado em Desenvolvimento Sustentável), Universidade de Brasília, 2010.

CORREA, Ester Paixão; ALENCAR, Edna Ferreira. Rito e devoção entre as mulheres marujas na Festa de São Benedito, Bragança-PA. V Reunião Equatorial de Antropologia e XIV Reunião de Antropólogos do Norte e Nordeste, Maceió, 2015.

MADEIRA, Angélica. Livro dos naufrágios: ensaio sobre a história trágico-marítima. Brasília: Editora da UnB, 2005.

PIRES, Josias. Dramas do mar: memórias das grandes navegações marítimas nas Cheganças de Marujos ou Marujadas. Revista da Bahia, Salvador, v. 1, p. 73-80, 2004.

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