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Santo Daime: A planta-mestre na Doutrina da Floresta


“Medicina do astral que o poder superior mandou pra nos guiar Aya, aya, ayahuasca [...] Sol, lua, estrela o mistério da floresta.”

Hinário Novo Amanhecer


A Amazônia foi inventada, ao menos sob a visão dos cronistas, viajantes e ficcionistas europeus, e sob a visão dos nativos (GONDIM, 2007). O mar de águas doces e a “exótica” floresta marcada pela exploração extrativista dos seringueiros desde o século XIX com o chamado Ciclo da Borracha, também consistiu no interesse de um de nossos maiores escritores, Euclides da Cunha. Para ele, a floresta seria um outro sertão e, após ser nomeado chefe da Comissão Brasileira para Reconhecimento do Alto Purus, em 1904, projetou elaborar um livro relatando suas experiências na região, assim como fez em Canudos. O livro que não chegou a ser escrito foi intitulado Um paraíso perdido, todavia o escritor publicou uma série de relatórios, artigos, prefácios, correspondências e crônicas com suas ideias sobre a floresta. (CUNHA, 1994)

Em um desses documentos enviados para Luis Cruls, em 1903, ano em que o Brasil adquiriu da Bolívia as terras que seriam transformadas no Território Federal do Acre, Euclides da Cunha desabafou: “Alimento, há dias, o sonho de uma viagem ao Acre”. E, após conhecer a região, ainda marcado pelo determinismo geográfico e pelo evolucionismo, afirmou que ali consistia em exemplo de uma “seleção telúrica”, ou seja, uma seleção pautada na “interiorização de elementos culturais e paisagísticos, concorrendo para a existência de uma simbiose entre o homem e a terra. (...) [Ele, assim], tende para a verticalidade.” (FERNANDES, 1992, p. 171-172)

Essa simbiose consiste em imagem extremamente pertinente para traduzir as expressões culturais surgidas através da manipulação e ingestão ritual de plantas-mestre na Amazônia, destacadamente a Banisteriapsis caapi. Richard Spruce a descobriu em 1857 após seu contato com a ayahuasca em uma expedição à região dos índios Záparo na Amazônia. Todavia, somente em 1927, que pesquisadores franceses confirmaram que ayahuasca, caapi e yagé seriam denominações diferentes para referir-se a mesma planta, a Banisteriapsis que teria forte ação psicoativa (GROISMAN, 1991). A ayahuasca (do quíchua aya, que significa espírito, e waska, cipó), é o nome dado tanto ao vegetal quanto a bebida, resultante da combinação do cipó com outras plantas, especialmente a Psychotria viridis e a Diplopterys cabrerana. Consiste em um chá utilizado milenarmente pelos grupos nativos na Amazônia, destacadamente para uso em contextos ritualísticos específicos: “elemento muito recorrente no universo cosmológico destes grupos é a existência nestas plantas de um espírito-mâe, que determina seu caráter sagrado e que as faz produzir o contato com seres que habitam esta dimensão invisível. Por isso, são consideradas ‘plantas-mestre’”. (p. 56)

No início do século XX, essa planta também começou a ser utilizada ritualmente por não-indígenas na invenção de práticas religiosas que possuem em comum a manipulação da ayahuasca em periferias urbanas amazônicas. Nelas, entre os sistemas fluviais e a cultura extrativista, ingere-se a “floresta” para promover a conexão com o sagrado. Trata-se do Santo Daime, da Barquinha e da União do Vegetal, com suas diversas fragmentações internas, três religiões fundadas por nordestinos que migraram para a Amazônia com o intuito de trabalhar como seringueiros. Segundo Sandra Goulart (2004), a relação entre “as religiões ayahuasqueiras e a cultura seringueira cabocla da Amazônia se dá num nível profundo, expressa na sua mitologia, nos seus rituais e no seu conjunto moral”, resultante do contato entre os “‘caucheiros’ [seringueiros] e grupos indígenas e populações ribeirinhas diversas já bastante influenciadas por uma evangelização cristã.” (p. 12) Surge, assim, a confluência de distintos tipos de xamanismo e vegetalismo com o catolicismo popular, o kardecismo, os cultos afro-brasileiros e correntes esotéricas.

O Santo Daime é a mais antiga dessas religiões. Criada no início da década de 1930, na periferia de Rio Branco-AC, por Raimundo Irineu Sena (1892-1971) conhecido como Mestre Irineu (Juramidam), que descendia de uma família de negros maranhenses relacionada ao Tambor de Mina. Em 1912, ele migrou do Maranhão para trabalhar no extrativismo da borracha no Acre e, a partir daí, teve contato com ayahuasqueiros peruanos, praticantes do xamanismo. Em uma dessas experiências com a “planta-mestre”, entrou no êxtase de “miração” (estado visionário provocado pela bebida). Guiado por uma voz, ele realizou retiros na mata marcados pela ingestão ritual das plantas, até se deparar com a aparição da Rainha da Floresta ou Virgem da Conceição. A partir desse momento nomeou a bebida de Daime, fruto do verbo reincidente nas orações recebidas: “dai-me força”, “dai-me luz”, dai-me amor”, configurando a doutrina sob influências do Astral.

Marcada por hinos que os adeptos acreditam receber do Astral e por bailados realizados pelos fiéis portando um fardamento especial, realizam movimentação sincrônica sob os ritmos da valsa, da marcha e da mazurca, marcados pela cadência do maracá. A execução dos hinários costuma ser extensa, entre dez e quinze horas, nessas ocasiões o Daime é ingerido várias vezes como um acionador do sagrado.

Dança e festa são meios privilegiados de comunicação com o mundo espiritual, conforme ocorre com um conjunto de rituais do catolicismo popular. Talvez, por isso, sejam evidenciadas algumas aproximações do Santo Daime com tradições populares, a exemplo do São Gonçalo, na análise das letras e melodia dos hinos, do bailado e, especialmente, das vestimentas. Sandra Goulart (2004) destaca que no Daime existem dois tipos de fardamentos, um branco, utilizado na execução dos hinários oficiais (para os homens: calça, blusa de manga comprida e paletó brancos, gravata preta, e uma estrela de seis pontas (estrela de Salomão) no peito direito; para as mulheres: saia e blusa de mangas compridas brancas, um saiote verde pregueado, uma faixa verde atravessada em diagonal, fitas coloridas que pendem do ombro, uma coroa de lantejoulas na cabeça, no lado direito do peito a estrela de Salomão e do esquerdo uma rosa bordada para as “mulheres”, e uma palma, para as “moças”); e um fardamento azul, mais “simplificado”, utilizado nos rituais de concentração e hinários não-oficiais.

A cosmologia apresenta aproximações com o universo kardecista e os hinários que sustentam os rituais demarcam trânsitos reelaborados do catolicismo popular a partir de um “reinado” e “império” na floresta e as citações a Jesus e a Virgem Maria. Uma das configurações mais representativas no contexto daimista, consiste na reinvenção realizada pelo seringueiro Sebastião Mota de Melo (Padrinho Sebastião), a partir da criação do Centro Eclético da Fluente Luz Universal, oficializado em 1978, agregando ao Daime elementos do movimento Nova Era e outros psicoativos, além de estimular fusões religiosas em sua configuração, a exemplo do Umbandaime. Essa liderança carismática foi responsável pela conformação da Doutrina da Floresta, cujas palestras, preleções e conversas informais foram sistematizadas e publicadas com o título O Evangelho segundo Sebastião Mota, organizado por Alex Alverga (1998).

No início da década de 1980, os adeptos se instalaram no Igarapé Mapiá, município de Pauini-AM, criando a Comunidade Céu de Mapiá no interior da Floresta Nacional do Purus. Consiste em um dos principais centros irradiadores do uso de plantas-psicoativas para a expansão da consciência e experiência mística. A abertura da religião para a inserção de elementos de outras matrizes possibilitou a invenção de novas práticas inspiradas pelo xamanismo, pajelança, curandeirismo, vegetalismo, catolicismo popular, kardecismo e, mais recentemente, o círculo esotérico e a umbanda. Dos igarapés para o céu de Mapiá encontra-se um telurismo singular, que constantemente inventa a Amazônia, na internalização concreta e metafórica dos mistérios de uma floresta de crenças difundida para os diversos cantos do Brasil e do mundo.

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Clovis Britto é professor e pesquisador da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Referências

ALVERGA, Alex Polari de (Org.). O Evangelho segundo Sebastião Mota. Boca do Acre, AM: CEFLURIS Editorial, 1998.

CUNHA, Euclides da. Um paraíso perdido: ensaios, estudos e pronunciamentos sobre a Amazônia. Rio de Janeiro: José Olympio, 1994.

FERNANDES, José. Dimensões da literatura goiana. Goiânia: CERNE, 1992.

GOULART, Sandra Lúcia. Contrastes e continuidades em uma tradição Amazônica: as religiões da Ayahuasca. Tese (Doutorado em Ciências Sociais), Universidade Estadual de Campinas, 2004.

GROISMAN, Alberto. “Eu venho da floresta”: ecletismo e práxis xamânica daimista no “Céu do Mapiá”. Dissertação (Mestrado em Antropologia), Universidade Federal de Santa Catarina, 1991.

GONDIM, Neide. A invenção da Amazônia. 2.ª Ed. Manaus: Editora Valer, 2007.

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