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Vaqueiro de couro cravejado: a pega de boi na caatinga


“Numa tarde bem tristonha

Gado muge sem parar

Lamentando seu vaqueiro

Que não vem mais aboiar

Não vem mais aboiar

Tão dolente a cantar

Tengo, lengo, tengo, lengo,

tengo, lengo, tengo

Ei, gado, oi.”

Luiz Gonzaga e

Nelson Barbalho


“Vaqueiro de seu couro cravejado” é um dos versos de Ariano Suassuna sobre a vida do sertanejo. O vaqueiro se tornou uma das figuras representativas de diversos rincões brasileiros, atravessando os sertões: das charqueadas sulistas, passando pelas comitivas pantaneiras até as regiões do agreste nordestino.

Em estudo sobre a categoria “sertão”, Custódia Sena e Mireya Suárez (2011) informam que desde a colonização brasileira o termo designava terra vazia, área inóspita e desconhecida, contrapondo ao mar e, ao mesmo tempo, região abundante e promissora. No século XIX, teria adquirido conotação negativa atrelando ao espaço a presença dos sertanejos cujos costumes “bárbaros” se contrapunham ao do litoral “civilizado” pelo colonizador. Surge, assim, um lugar imaginário de confronto. Todavia, ao longo do século XX, houve uma ressignificação que o reconheceu como local de alguns dos valores “autênticos” da nacionalidade, como fronteira interna brasileira: “com as negatividades de rudeza e barbárie atribuídas anteriormente ao sertão e, por outro, com as positividades de abundância, fertilidade e prosperidade” (p. 7).

Portanto, é inegável que o sertão enquanto uma categoria analítica acompanhou a configuração do pensamento social brasileiro, com múltiplos sentidos: terra à dentro, longe do mar, vastidão, isolamento, barbárie, forma de orientação social e organização cultural. Por essa razão, Durval Muniz de Albuquerque Júnior (2014) visualiza a existência de uma pluralidade de sertões, reconhecendo que “este recorte espacial, que essa identidade regional guarda em seu interior a diferença, a diversidade, a multiplicidade de realidades e, talvez, de representações” (p. 42). Por isso, podemos reconhecer o sertão (e, consequentemente, o sertanejo) como uma invenção.

O vaqueiro é um desses personagens emblemáticos que reinventam esse espaço simbólico e geográfico, marcado por múltiplos trânsitos entre lugares, assim como descrito por Guimarães Rosa: “sertão: estes seus vazios. O senhor vá. Alguma coisa, ainda encontra. Vaqueiros...". No caso do vaqueiro da caatinga, ele se torna o exemplo da resistência nesse ecossistema brasileiro marcado por solos pouco férteis, vegetação arbustiva e densa, clima semiárido com elevadas temperaturas e escassa disponibilidade de água, ao edificar aquilo que Capistrano de Abreu (1907) denominou como “civilização do couro”, demonstrando a importância da pecuária no período colonial para a consolidação de uma economia do pastoreiro ligada aos trajetos de boiadas, locais de criação e núcleos consumidores.

De acordo com Mônica Meyer (2008) o vaqueiro, em virtude da singularidade do trabalho, estabelece uma íntima relação com cavalos, mulas, burros e bois. E além de ser o responsável por domar o animal, por sua domesticação, alimentação e manipulação com laços e cabrestos, ele o monta. Concluindo que o contato corpo/corpo entre cavalo e cavaleiro contribui para a vivência de situações simultâneas – vento, chuva, sol, locais acidentados ou tranquilos. Juntamente com essas características, Mario de Andrade (1989) também destaca que ao conduzir o gado pelas estradas esse personagem entoa “uma arabesco, geralmente livre de forma estrófica, destituído de palavras as mais das vezes, simples vocalizações, interceptadas quando senão por palavras interjectivas, ‘boi êh boi’, boiato etc. O ato de cantar assim chama de aboiar. Ao canto chama de aboio.” (p. 1-2)

O couro que garante sua lida é o que compõe sua vestimenta (geralmente feita de couro de carneiro ou de boi). Chapéu em forma de cuida com dois cordões nas extremidades amarrados ao queixo; o corpo revestido por duas peças (guarda-peito) até a cintura e gibão com mangas até os pulsos e, em época de festas, ainda é utilizado um colete de lã; o dorso das mãos revestido por luvas que deixam livres os dedos para manuseio das rédeas; calça comum coberta de perneiras fixas na cintura, estendendo da virilha até os pés, deixando livre o movimento das pernas; alpercata ou botinas de cano curto. O cavalo também é recoberto por peças em couro, independentes, que cobrem face, peito, pescoço e metade das pernas, além do assento do vaqueiro composto por três peças. (VIEIRA, 2007)

Dentre as práticas em torno do boi na caatinga, além do aboio, ainda são comuns os “desafios” em que os vaqueiros utilizam improvisos e cantos, os rituais das “ferras” das reses (marcação com ferro em brasa) e das castrações, e as práticas lúdicas rurais das vaquejadas. Em alguns locais, vaquejada diz respeito à perseguição do boi em uma arena fechada. Em outras localidades, é um nome genérico que se refere às “festas de apartação”, às “pegadas ou pegas de boi” e às “corridas de mourão ou morão”.

Com a ausência das cercas a separar as propriedades, o gado se embrenhava na caatinga e se misturava às reses de outros proprietários. Ao longo da estação chuvosa ou no momento de comercialização, os criadores realizavam as “festas de apartação”, oriundas do século XIX. Nelas, os vaqueiros demonstravam suas habilidades para reaver o rebanho, separando o gado misturado entre o dos vizinhos e também os que seriam vendidos, ferrados ou castrados. Na apartação, alguns animais bravios – conhecidos como “marueiros” ou “barbatões” – fugiam, sendo perseguidos por dois ou mais vaqueiros em meio à caatinga para serem derrubados pela cauda. Esse gesto ficou conhecido como “pegada de boi” ou “pega de boi” e, aos poucos, se transformou em um ritual festivo conferindo ao vaqueiro habilidoso, fama, recompensas em dinheiro ou o próprio animal vencido. Essas práticas quando são transferidas da caatinga para o pátio das fazendas são conhecidas como “corridas de morão” ou “mourão”. Nessa modalidade, os vaqueiros correm, um de cada vez, atrás do boi visando demonstrar destreza e vigor físico, em prol da melhor “puxada do boi”.

A pega do boi consiste em uma das manifestações que integram a Festa do Vaqueiro de Serrita-PE, no alto sertão do Araripe, conhecida como a “Capital do Vaqueiro”. No terceiro final de semana de julho ocorre um conjunto de atividades em celebração ao universo dos vaqueiros, marcado por lendas, a exemplo do boi Aruá, animal encantado e inalcançável. Em plena caatinga ocorre à pega do boi. Na modalidade “Pega de pé de porteira”, o animal é preso em um curral e solto para que as duplas de vaqueiros capturem no menor tempo possível o cordão de couro que o boi carrega ao pescoço. Na modalidade “Pega de boi no mato”, a boiada é solta na caatinga e quem conseguir recuperar os animais é o vencedor.

Essa manifestação sertaneja também é atravessada, na maioria das vezes, por uma profunda religiosidade. Antes da pega de boi, o vaqueiro realiza suas orações, em busca de proteção. No caso de Serrita, ganha força as marcas do catolicismo cujo ápice é a Missa do Vaqueiro. O mito fundador dessa celebração foi o assassinato do vaqueiro Raimundo Jacó em 1954 quando exercia seu ofício, no Sítio das Lages, local que a partir de sua morte tornou-se destino de constantes romarias. A missa, criada em 1971, ocorre no lugar onde ele foi encontrado morto, um altar rústico é montado em meio à caatinga e a cerimônia é acompanhada por aboiadores. Um dos apoiadores da celebração foi o músico Luiz Gonzaga, primo de Raimundo Jacó, que compôs a canção “A morte do vaqueiro” juntamente com Nelson Barbalho. (LIMA, 1991)

Nos últimos anos, a vaquejada tem sido objeto de discussões suscitadas pelos defensores dos direitos animais que a consideram como uma crueldade. Independente disso, com o couro cravejado e os rostos cortados pelos espinhos da vegetação, vaqueiros de diversas partes do Brasil continuam anualmente se reunindo na Festa do Vaqueiro de Serrita - famosa pela “Pega do boi” e pela “Missa do Vaqueiro” - reconhecida como Patrimônio Imaterial de Pernambuco pela Lei n.º 13.746∕2009. A manifestação sintetiza uma série de rituais que ocorre em todo o país e cujo objetivo é traduzir a mística relação entre o vaqueiro e o sertão.

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Clovis Britto é professor e pesquisador da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Referências

ABREU, José Capistrano de. Capítulos de história colonial (1500-1800). 4. Ed. Rio de Janeiro: Briguiet, 1954.

ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz de. Distante e/ou do instante: “sertões contemporâneos”, as antinomias de um enunciado. In: FREIRE, Alberto (Org.). Culturas dos sertões. Salvador: EDUFBA, 2014.

ANDRADE, Mário de. Dicionário musical brasileiro. Belo Horizonte: Itatiaia; Brasília: Ministério da Cultura; São Paulo: Editora da USP, 1989.

LIMA, Janirza Cavalcante da Rocha. Rezas ao sol: memória e tradição na Missa do Vaqueiro em Serrita-PE. Cadernos CERU, n.º 3, 1991.

MEYER, Mônica. Ser-tão natureza: a natureza em Guimarães Rosa. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2008.

SENA, Custódia Selma; SUÁREZ, Mireya (Orgs.). Sentidos do sertão. Goiânia: Cânone Editorial, 2011.

VIEIRA, Natã Silva. Cultura de vaqueiro: o sertão e a música dos vaqueiros nordestinos. III Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura, Salvador, 2007.

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