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Fotografia brasileira, diversidade cultural, eraldo peres

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A doutrina do Santo Daime na floresta amazônica


A lua ainda brilha imponente, mesclando-se aos primeiros raios de sol durante o nascer do dia no porto da cidade de Boca do Acre, no sul do estado do Amazonas. Aos poucos os movimentos de pessoas e barcos vão crescendo nas margens do Rio Purus, principal via e meio de acesso para a floresta amazônica.


Ao som ensurdecedor dos pequenos motores, os barcos partem para mais de seis horas de viagem rumo a comunidade Vila Céu do Mapiá, iniciando seu percurso pelo grande rio e finalizando pelo pequeno Igarapé do Mapiá, até lentamente alcançar o porto da comunidade, ao lado da grande ponte de madeira.

A primeira vista da vila revela a imponência da mata e suas casas de madeira, cuidadosamente pintadas com cores vivas, comuns aos moradores da floresta. Com mais de mil habitantes e organizada em torno das famílias fundadoras, a comunidade está construída junto das tradicionais casas das madrinhas e padrinhos, líderes espirituais e principais responsáveis pelo desenvolvimento da doutrina.


Entre bandeirinhas coloridas em homenagem ao festival de São Joao, um dos principais festivais do Santo Daime, está a casa da Madrinha Rita Gregório, 91 anos, matriarca e esposa do Padrinho Sebastião, um dos principais fundadores da doutrina e da comunidade.

Com seu sorriso constante, Madrinha Rita lembra quando chegou no início dos anos 80, na região onde hoje encontra-se a vila. “ Rapaz, a gente chegou no Mapiá para acampar, não tinha nada, tivemos que fazer um limpo para poder acender uma vela. Fizemos uma casa pra todo o povo que veio na primeira vez, era quase tudo família”. Hoje, a comunidade demonstra se apresenta de forma consolidada, com uma forte base de organização em torno da associação de moradores e da igreja do Santo Daime.


Antes de voltar ao seu repouso obrigatório, decorrente de enfermidades recentes, Madrinha Rita complementa, “O mundo esta dessa forma porque não teve amor, as pessoas entraram logo na coisa má, na violência. Para quem acredita no Pai poderoso e segue na doutrina, tem Fé e tem tudo”.

Também conhecedor da doutrina, o mais velho Luiz Lopes de Freitas, 72 anos, fala da importância da bebida sagrada na sua vida, enfatizando que o “Daime para mim é tudo, foi ele que me tirou da sepultura. Foi a única coisa que achei nesse mundo que ensina a Fé e que cura”.

O Santo Daime, bebida sagrada para a doutrina, encontra suas origens nas populações indígenas da Amazônia ocidental, iniciando como movimento doutrinário nas primeiras décadas do século XX, por meio do trabalho espiritual do seu fundador, o maranhense e neto de escravos Raimundo Irineu Serra.


Segundo os registros, ao Mestre Irineu foi revelada uma doutrina de cunho cristão e eclético, reunindo tradições católicas, espíritas, esotéricas, caboclas e indígenas em torno do uso ritual do milenar chá conhecido pelos povos Incas como ayahuasca - vinho das almas - e por ele denominado Santo Daime”. A bebida é obtida pelo cozimento de duas plantas nativas da floresta, o cipó Jagube (banisteriopsis caapi) e a folha Chacrona (psicotria viridis), chamada de rainha pelos seus seguidores.

De acordo com o Padrinho Alfredo Gregório, 66 anos, filho do Padrinho Sebastiao e hoje um dos principais líderes espirituais, o Santo Daime “tem propriedades enteogênicas e produz uma expansão de consciência responsável pela experiência de contato com o plano espiritual, através do encontro interior com o nosso Eu Verdadeiro”.

O seu preparo faz parte de um ritual sagrado, quando para as mulheres são reservadas as tarefas de coleta e limpeza das folhas e aos homens, a escolha e a maceta do cipó, realizada na casa do feitio ao som das batidas dos porretes e dos cantos dos hinários. Após as etapas de seleção e bateção, prossegue um verdadeiro processo de alquimia, com a mistura do cipó e da folha em grandes panelas que são levadas para o cozimento, onde são fervidas por horas antes de serem coadas e acondicionados para o consumo.


Raimundo Sidnei, 37 anos, um dos responsáveis pela equipe de feitio revela que “o que mais gosta no feitio do Daime e ir para a floresta recolher o cipó e a rainha”. Para ele o feitio significa muito, “a minha vida, o Santo Daime, trabalhar aqui até a hora que ele quiser, porque é uma obra de Deus”.

Tudo está pronto para a noite do dia 23 de julho, dia de São João, dia de farda branca e do hinário do Mestre Irineu. Aos poucos vão chegando as mulheres, famílias e casais, com suas fardas em verde e branco para celebrar os festejos juninos e a bebida sagrada.

Na igreja, em forma arredondada lembrando as moradias indígenas, os trabalhos iniciam pelas rezas. Em torno de uma grande mesa em formato da estrela de Salomão, tendo ao centro algumas velas acesas e uma Cruz de madeira, as madrinhas e mulheres mais velhas iniciam a reza do terço.

Madrinha Gecila Teixeira de Souza, 66 anos, uma cabocla de tranças compridas conta que “desde os 12 anos, por ordem do Mestre Irineu, vestiu sua farda, pois ele achou que ela já estava pronta, já bailava e cantava, tinha aprendido e sabia os hinários”. E acrescenta, “os hinários são a nossa doutrina e as preces do nosso serviço”.

Após a reza acontece um intervalo para que os seguidores possam participar de um dos mais importantes momentos da noite, a celebração do Santo Daime. Diante de filtros brancos formam-se duas filas, de um lado as mulheres e do outro os homens que, após fazer o sinal de Cruz e beber a bebida sagrada, partem para o centro da igreja onde, em concentração, iniciam os serviços da noite.


No formato de um grande círculo dividindo mulheres de um lado e homens do outro, para manter o equilíbrio entre o feminino e o masculino, os dois grupos lembram a figura oriental do yin e do yang e prosseguem em um harmonioso bailado ao som dos cantos dos hinários e dos ritmos dos maracás.

Lembrando os salmos e os cânticos bíblicos, os hinários são cantados por todas as vozes. Com melodias simples e formando um grande coral os versos levam a todos os ensinamentos da doutrina, criando um intenso ambiente de concentração. Levado pela força da bebida sagrada, os hinos vão abrindo os caminhos que levam os participantes a uma vivência interior de conhecimento e consciência.

Enquanto no interior da igreja os cantos prosseguem, fora dela pequenos grupos se aglomeram em torno da grande fogueira de São João. São pequenos intervalos que permitem se aproximar do calor do fogo sob um a noite estrelada da floresta, uma harmonia entre celebração, música e canto, um encontro de todos com sigo mesmo.


O dia vai amanhecendo, os primeiros raios de sol começam a surgir no horizonte, a Lua ainda mostra o seu brilho, os hinários e os ritmos dos bailados anunciam o fim dos serviços. Como em uma visão celestial, surge no horizonte sobre a floresta uma grande nuvem em forma de uma águia em posição de voo, símbolo da doutrina do Santo Daime.

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Eraldo Peres é fotógrafo documentarista e autor do projeto Filhos da Terra.

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